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Qual versão das DRIs o Dietitian usa

As referências de micronutrientes do Dietitian são as DRIs (Dietary Reference Intakes), publicadas pela Food and Nutrition Board do Institute of Medicine, hoje National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (NASEM). É o padrão adotado na prática clínica brasileira.

Vale começar por um esclarecimento que gera confusão com frequência: as DRIs não têm uma versão única. Elas são uma série de relatórios publicados entre 1997 e 2019, um para cada grupo de nutrientes, e cada valor fica vigente até que aquele relatório específico seja revisado.

Ou seja, uma tabela de DRI atualizada é sempre uma composição de várias datas. Não existe "a DRI de 2019" cobrindo tudo — existe o relatório de 2019, que tratou de dois nutrientes.

A série completa, e onde estamos em cada uma

RelatórioAnoO que usamos deleStatus
Cálcio, fósforo, magnésio, vitamina D e flúor1997fósforo, magnésio, flúorvigente
Tiamina, riboflavina, niacina, B6, folato, B12, ácido pantotênico, biotina e colina1998todo o complexo B e colinavigente
Vitamina C, vitamina E, selênio e carotenoides2000vitaminas C e E, selêniovigente
Vitamina A, vitamina K e elementos-traço2001vitaminas A e K, ferro, zinco, iodo, cobre, cromo, manganês, molibdêniovigente
Energia, carboidrato, fibra, gordura, ácidos graxos, colesterol, proteína e aminoácidos2002/2005fibra, ácido linoleico, ácido α-linolênicovigente
Água, potássio, sódio, cloreto e sulfato2005cloretovigente para cloreto
Cálcio e vitamina D — revisão2011cálcio, vitamina Dvigente
Sódio e potássio — revisão2019sódio, potássiovigente

As duas últimas linhas são revisões: a de 2011 substituiu o relatório de 1997 para cálcio e vitamina D, e a de 2019 substituiu o de 2005 para sódio e potássio. O relatório de 2005 continua valendo para o cloreto, que não foi revisitado.

Usamos a edição vigente de cada nutriente. Os anos mais antigos não significam valor desatualizado — significam que aquele relatório nunca precisou de revisão. A vitamina C, por exemplo, segue com o valor definido em 2000 porque é o vigente até hoje.

Duas mudanças que costumam gerar dúvida

Por que o sódio não diminui mais com a idade

Até a edição de 2005, a recomendação de sódio caía depois dos 50 anos: 1500 mg/dia no adulto, 1300 mg dos 51 aos 70 e 1200 mg acima de 70.

A revisão de 2019 eliminou esse escalonamento. Hoje a AI é de 1500 mg/dia para todos a partir de 14 anos, inclusive gestantes e lactantes.

A mesma revisão também mudou o enquadramento do excesso: o UL de sódio foi abolido e substituído por uma nova categoria de referência, a CDRR (Chronic Disease Risk Reduction), que não é um teto de toxicidade e sim uma meta de redução — orienta reduzir a ingestão quando ela está acima de 2300 mg/dia no adulto.

Por que o potássio ficou mais baixo do que você aprendeu

A edição de 2005 trazia 4700 mg/dia para todo adulto, sem distinção de sexo. É o valor que a maioria de nós aprendeu na graduação.

A revisão de 2019 reduziu esse número e passou a separar por sexo a partir dos 9 anos:

FaixaHomensMulheres
0 a 6 meses400 mg400 mg
7 a 12 meses860 mg860 mg
1 a 3 anos2000 mg2000 mg
4 a 8 anos2300 mg2300 mg
9 a 13 anos2500 mg2300 mg
14 a 18 anos3000 mg2300 mg
19 anos ou mais3400 mg2600 mg
Gestantes2600 mg (14–18 a) · 2900 mg (19–50 a)
Lactantes2500 mg (14–18 a) · 2800 mg (19–50 a)

Para o potássio, a NASEM não conseguiu estabelecer nem UL nem CDRR — não há evidência suficiente para definir um teto na população saudável.

Se você aprendeu 4700 mg, esse era o valor da edição anterior. O Health Canada registra a troca de forma explícita na tabela de elementos, com a nota "New 2019 values have replaced previous 2005 values".

Onde conferir cada valor

As tabelas oficiais consolidadas do Health Canada são o caminho mais prático para checar qualquer valor, porque estão em HTML navegável e separadas por grupo de nutriente:

As mesmas tabelas na publicação primária da NASEM, via NCBI:

E os relatórios de revisão citados acima:

O NIH mantém ainda uma ficha técnica por nutriente na versão "Health Professional", com contexto clínico além do número — por exemplo, a ficha do potássio.

Por que não usamos a IDR ou a VDR da ANVISA

O Brasil não tem um conjunto nacional de valores de referência para avaliação e prescrição individual. A formação e a prática clínica adotam as DRIs, e é por isso que elas são a base do Dietitian.

Existem valores brasileiros, mas com outra finalidade:

  • A IDR (RDC nº 269/2005) é baseada em FAO/WHO 2001 e nas DRIs de 1999 a 2001 — ou seja, ciência anterior à revisão de 2011. Traz vitamina D 5 µg, vitamina C 45 mg e folato 240 µg, entre outros valores hoje defasados para uso clínico.
  • A VDR (IN nº 75/2020) é mais recente e rege a rotulagem nutricional, mas usa valor único por nutriente, sem separação por sexo ou faixa etária.

As duas servem para calcular o %VD que aparece no rótulo dos alimentos, não para prescrever para uma pessoa.

O caso da colina mostra bem o tamanho da diferença: as duas normas brasileiras listam 550 mg como valor adulto único, sem separação por sexo, enquanto a DRI diferencia 550 mg para homens e 425 mg para mulheres. Usar o valor de rótulo numa prescrição individual embutiria um erro de quase 30% na meta de uma paciente.

Por isso mantemos os dois conjuntos rigorosamente separados: a matemática de %VD de rótulo de um lado, e a meta do plano alimentar sempre vindo da DRI do outro.

Como conferimos os valores

Ter a edição certa de cada relatório não basta — os valores também precisam estar corretos linha por linha. Nossa tabela cobre 24 faixas, entre sexo, idade, gestação e lactação, e cada valor é conferido contra as tabelas-resumo oficiais da Food and Nutrition Board, que são as mesmas linkadas acima. Quando a NASEM revisa um relatório, atualizamos.

Uma nota sobre o que ainda vai mudar

O relatório de macronutrientes de 2002/2005 — que define os valores de fibra e ácidos graxos essenciais — está em processo de revisão pela NASEM, sem data de publicação anunciada. Há também um parecer de 2024 recomendando a remoção da AMDR do conjunto de valores das DRIs.

Quando essas mudanças saírem, atualizamos a tabela e este artigo.

Documentos de referência