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Como o Dietitian calcula composição corporal

O Dietitian traz seis protocolos de dobras cutâneas, dois deles desenvolvidos em população brasileira, e integra os valores de qualquer balança de bioimpedância. Este artigo mostra qual equação está por trás de cada nome, em que população cada uma foi validada, e como o software ajuda você a escolher a certa para cada paciente.

Os protocolos

ProtocoloDobras exigidasOnde foi desenvolvido
Durnin & Womersley (1974)tríceps, bíceps, subescapular, supra-ilíaca209 homens e 272 mulheres, 16 a 72 anos, Glasgow. Estratificado por sexo e faixa etária — é o de maior amplitude de idade.
Jackson & Pollock 3 dobrashomens: peitoral, abdominal, coxa · mulheres: coxa, supra-ilíaca, tríceps308 homens de 18 a 61 anos (1978) e 249 mulheres de 18 a 55 (Jackson, Pollock & Ward, 1980)
Jackson & Pollock 7 dobraspeitoral, abdominal, coxa, tríceps, subescapular, supra-ilíaca, axilar médiamesmas amostras, com sete sítios
Petroski (1995)homens: subescapular, tríceps, supra-ilíaca, panturrilha medial · mulheres: axilar média, supra-ilíaca, coxa, panturrilha medialbrasileiro — 304 homens (18 a 66 anos) e 281 mulheres (18 a 51), Sul do Brasil, com pesagem hidrostática como critério
Guedes (1985)homens: tríceps, supra-ilíaca, abdominal · mulheres: subescapular, supra-ilíaca, coxabrasileiro — 110 homens (17 a 27 anos) e 96 mulheres (18 a 30), universitários de Santa Maria
Faulknertríceps, subescapular, supra-ilíaca, abdominalhomens jovens treinados. Equação de leitura rápida, consagrada em avaliação esportiva.

Ter Petroski e Guedes aqui é uma escolha deliberada. Equações desenvolvidas em população norte-americana ou europeia carregam viés quando aplicadas fora dela, e essas duas foram derivadas em brasileiros — o Petroski com a faixa etária mais ampla, o Guedes em adulto jovem.

Um detalhe de rigor que vale registrar: o artigo de Durnin & Womersley publica estratos a partir dos 17 anos. Abaixo disso, o Dietitian usa as equações de Durnin & Rahaman (1967), o estudo precursor do mesmo grupo, que é de onde vêm os coeficientes dessa faixa. A maior parte da literatura aplicada credita tudo ao artigo de 1974 sem fazer essa distinção.

O software escolhe junto com você

Cada equação foi validada numa faixa etária, e o Dietitian conhece essas faixas. Ao abrir o seletor de protocolo, as opções fora da faixa do seu paciente aparecem acinzentadas, com a explicação no hover.

O caso mais comum é o Petroski em adolescente: ele foi desenvolvido em adultos e não tem versão publicada para menores de 18 anos. Nesse caso o seletor indica o caminho — Durnin & Womersley cobre a partir dos 16, e para crianças a avaliação pediátrica tem referências próprias, com as curvas da OMS.

O Faulkner vale a mesma atenção por outro motivo: foi derivado em homens jovens treinados e não tem versão feminina publicada. É excelente no contexto para o qual nasceu, avaliação esportiva masculina, e é aí que ele rende.

Quando o paciente ainda não tem data de nascimento cadastrada, nada fica bloqueado — mas os protocolos que usam idade na equação avisam que precisam dela.

O cadastro entra na conta

Sexo e idade não são só rótulos na ficha: na maioria dos protocolos eles são termos da equação. Vale ver o tamanho disso num caso concreto.

Homem, 35 anos, somatório de 95 mm no Jackson & Pollock 7 dobras:

CenárioDensidadePercentual de gordura
Cadastro correto1,06614,5%
Mesmas dobras, sexo trocado1,05320,1%
Mesmas dobras, idade errada em algumas décadas1,05320,0%

Mais de 5 pontos percentuais de diferença, com exatamente as mesmas dobras. E repare que sexo trocado e idade errada produzem praticamente o mesmo desvio — olhando só o resultado, não dá para saber qual dos dois campos está errado.

Na prática isso significa duas coisas. A primeira é que vale conferir sexo e data de nascimento depois de migrar de outro sistema, que é quando esses campos costumam chegar torcidos. A segunda é que, se um percentual de gordura parecer incoerente com as dobras que você mediu, o cadastro é o primeiro lugar a olhar — antes de desconfiar da medição.

Da densidade ao percentual de gordura

Cinco dos seis protocolos estimam densidade corporal. A conversão para percentual de gordura usa uma segunda equação, e o Dietitian usa a Siri, padrão na prática clínica:

EquaçãoFórmula
Siri (1961)%G = (4,95 ÷ densidade − 4,50) × 100
Brozek et al. (1963)%G = (4,57 ÷ densidade − 4,142) × 100

A Siri parte da premissa de que a massa livre de gordura tem densidade de 1,100 g/cm³ — o que vale para adulto e é justamente por que a avaliação pediátrica segue outro caminho: em criança e adolescente a mineralização óssea ainda está em curso e essa constante não se aplica.

O Faulkner é a exceção do conjunto: devolve percentual de gordura diretamente, sem passar por densidade.

Os quatro compartimentos

Além do percentual de gordura, o Dietitian decompõe o peso em quatro partes, pelo protocolo de fracionamento de De Rose & Guimarães:

CompartimentoOrigem
Massa gordapeso × percentual de gordura
Massa ósseaequação de von Döbeln, adaptada por Rocha (1975), a partir da estatura e dos diâmetros de punho e fêmur
Massa residualproporção do peso — 24,1% no homem, 20,9% na mulher. São órgãos, vísceras e fluidos. Valores de Würch (1974).
Massa muscularpeso menos os três anteriores

Como ler cada número

Os quatro compartimentos não têm a mesma natureza, e saber disso muda o que dá para concluir de cada um.

A massa gorda é a mais direta: vem do percentual estimado pelas dobras, com o erro-padrão da equação escolhida — tipicamente 3 a 4 pontos percentuais nas melhores.

A massa óssea depende dos diâmetros de punho e fêmur. Vale medir com atenção, porque é a única entrada específica desse compartimento.

A massa muscular é derivada por diferença, e essa é a informação mais útil sobre ela: como fecha a conta, ela acumula o que os outros três deixaram. Isso a torna excelente para acompanhar tendência e imprópria para leitura absoluta. Uma paciente que ganha massa muscular consistentemente ao longo de meses, medida pelo mesmo protocolo e pelo mesmo avaliador, está de fato ganhando. Já a diferença entre 32,4 kg e 33,1 kg numa avaliação isolada está dentro da variação do método.

É a mesma razão pela qual manter o protocolo ao longo do acompanhamento importa mais do que escolher o "melhor" protocolo. Cada equação tem seu viés, estável no mesmo indivíduo — a série temporal é limpa enquanto a equação não muda.

Quando falta uma medida

Sem os diâmetros ósseos, a massa óssea não é calculada e o Dietitian avisa. É uma decisão de projeto: osso não medido e zero quilo de osso são coisas diferentes, e tratar um como o outro jogaria a diferença inteira na massa muscular sem ninguém perceber. Vale o mesmo para medida fora da faixa fisiológica.

Bioimpedância

Quando a origem é a balança, o Dietitian preserva os valores que o aparelho calculou — massa gorda, massa magra, água corporal, gordura visceral, idade metabólica — e usa esses números como base do restante da avaliação.

Como cada fabricante tem seu próprio algoritmo, manter a mesma balança ao longo do acompanhamento tem o mesmo efeito de manter o mesmo protocolo de dobras: a série temporal fica coerente.

Massa residual e massa muscular continuam vindo do fracionamento também nesse caminho, já que são compartimentos que a bioimpedância não mede.

Classificação

IndicadorFaixasReferência
Percentual de gorduraEssencial, Atleta, Fitness, Aceitável, ObesidadeBandas do American Council on Exercise, com a variação do limiar de obesidade por idade seguindo Gallagher et al. (2000)
IMCabaixo de 18,5 · 18,5 a 25 · 25 a 30 · obesidade I, II e IIIOrganização Mundial da Saúde
IMC do idoso (60 anos ou mais)abaixo de 22 · 22 a 27 · acima de 27Lipschitz (1994), aplicado a partir dos 60 anos conforme o SISVAN
Relação cintura-quadrilrisco baixo, médio e altoOMS — risco substancialmente aumentado a partir de 0,90 no homem e 0,85 na mulher

Sobre as faixas de percentual de gordura: as bandas vêm do American Council on Exercise, que é convenção amplamente adotada na área de exercício. A variação por idade do limiar de obesidade tem base publicada em Gallagher, e é diferente entre os sexos — no homem sobe 3 e depois 2 pontos ao avançar as faixas etárias; na mulher, 1 e depois 2.

Onde conferir

Siri (1961) foi publicado em Techniques for Measuring Body Composition, da National Academy of Sciences, com a formulação original no relatório UCRL-3349 do Donner Laboratory, de 1956. Petroski (1995) e Guedes (1985) são tese e dissertação da Universidade Federal de Santa Maria, com os coeficientes reproduzidos em artigos revisados por pares da área de cineantropometria.